Em 1968 os Beatles já haviam inventado e incorporado tudo em relação à música pop. Depois de discos como Rubber Soul e Sgt. Peppers eles eram a banda mais paradoxal do mundo, compondo as musicas de seu primeiro álbum lançado pela sua própria gravadora em um retiro espiritual na Índia, ou escondendo da capa do álbum branco tanto suas caras quanto o famigerado logo oficial da banda. O fato é que em 1968 a música pop já era pequena demais para o discurso que eles propunham. Era chegada a hora de inventar de novo.
Muito se diz a respeito de como Helter Skelter ajudou a prescrever o Heavy Metal e de fato é verdade, mas é verdade também que o Heavy Metal não era o que os Beatles precisavam, era apenas um dos elementos da ambição maior (mesmo que inconsciente) do álbum onde os Beatles inventaram, em meados da década de 60, a maneira como o mundo de hoje se comunica.
Em agosto de 68 saiu o compacto de Hey Jude, e como lado b do hit que dá nome ao disco estava Revolution, uma composição de Lennon rasgada, politizada e para os padrões da época, barulhenta. No mundo que gerou o álbum branco, havia pouco espaço para se falar, então quando criava-se o espaço, naturalmente falava-se. Havia também pouco espaço para barulho no rock, então quando surgia a oportunidade, lá estava ele também, urgente sinal de transgressão. Assim foi com Revolution, até essa altura sem número.
Três meses depois sai o álbum branco. O álbum escrito na Índia, lançado pela gravadora deles e sem capa, o controverso álbum branco. Lá estava outro grito, a já citada Helter Skelter; a composição de Paul era aparentemente o mais ambicioso salto dos Beatles rumo a algo novo. Aparentemente, ledo engano. Helter é a penúltima música do lado A do disco 2, a ela segue-se Long, Long, Long, uma inspirada música de elevador de George; virando o lado está Revolution 1, já numerada (em função de Revolution 9) e em uma versão bem diferente, mais próxima a concepção original de John, lenta, sincopada e, quem diria, silenciosa. John era um amante das artes plásticas (não sem motivo se apaixonou por Yoko) e assim sendo, sabia que um quadro não pode ser só luz, mas sim a cadência entre luz e sombra, assim como a comunicação não pode ser só barulho (ou palavras), tem de haver silêncio. Mais do que uma necessidade, o silêncio é a dura realidade por trás das palavras, nós podemos interromper o silêncio, mas nunca extingui-lo.
Com a internet, pode parecer que não, mas o mundo tem aprendido cada vez mais a se utilizar do silêncio como uma maneira de aumentar o valor da palavra, assim como os Beatles fizeram com Revolution e Helter Skelter. No fim, somos todos ateus utilizando o silêncio como palavra mais adequada para dizer adeus.
3 comentários:
não sei dizer exatamente porque, mas tu me enche de orgulho com essas coisas.
mas eu pensei que fosse o supr mario que mudou td
e como diria arnaldo antunes: antes de existir a voz, existia o silêncio.
faz um favor? presta fuvest no final do ano e vai virar jornalista
:)
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